{"id":113299,"date":"2023-06-29T14:17:36","date_gmt":"2023-06-29T18:17:36","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/?p=113299"},"modified":"2023-06-29T14:17:36","modified_gmt":"2023-06-29T18:17:36","slug":"cientistas-abrem-tunel-do-tempo-para-estudar-o-passado-remoto-da-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/cientistas-abrem-tunel-do-tempo-para-estudar-o-passado-remoto-da-amazonia\/","title":{"rendered":"Cientistas abrem \u201ct\u00fanel do tempo\u201d para estudar o passado remoto da Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Uma equipe internacional de pesquisadores iniciou nesta sexta-feira (16 de junho) a perfura\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o de dois quil\u00f4metros de profundidade no Acre, que, se tudo der certo, dever\u00e1 funcionar como um \u201ct\u00fanel do tempo\u201d para enxergar como era a vida na Amaz\u00f4nia at\u00e9 65 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, logo ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros.<\/p>\n<p>A iniciativa envolve cerca de 60 pesquisadores, de 12 pa\u00edses, metade deles vinculada a institui\u00e7\u00f5es brasileiras. Treze s\u00e3o da USP. Trata-se do \u201cmais amplo programa de pesquisa j\u00e1 organizado para estudar a origem e a evolu\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia\u201d, segundo os cientistas. O objetivo \u00e9 entender como a floresta se formou, como ela se modificou ao longo do tempo e o que pode acontecer com ela daqui para frente, caso as condi\u00e7\u00f5es ambientais e clim\u00e1ticas \u00e0s quais ela foi exposta no passado venham a se repetir no futuro \u2014 algo muito prov\u00e1vel de acontecer j\u00e1 nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, segundo as previs\u00f5es clim\u00e1ticas do presente.<\/p>\n<p>Para contar essa hist\u00f3ria pr\u00e9-hist\u00f3rica os cientistas v\u00e3o coletar milhares de \u201ctestemunhos\u201d do subsolo da floresta, extra\u00eddos de duas localidades, nas bordas leste e oeste da Amaz\u00f4nia brasileira. Come\u00e7ando por esse po\u00e7o de 2 mil metros no munic\u00edpio de Rodrigues Alves, \u00e0s margens do Rio Juru\u00e1, no norte do Acre; seguido de um po\u00e7o de 1.200 metros de profundidade numa ilha fluvial do munic\u00edpio de Bagre, no Par\u00e1, ao sul da Ilha do Maraj\u00f3. A previs\u00e3o \u00e9 que cada po\u00e7o leve cerca de tr\u00eas meses para ser perfurado, com equipes trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana.<\/p>\n<p>Cada \u201ctestemunho\u201d \u00e9 uma amostra cil\u00edndrica de at\u00e9 seis metros (m) de comprimento, contendo uma amostragem vertical das diversas camadas de rocha e sedimento que comp\u00f5em o subsolo da floresta. Cada uma dessas camadas, por sua vez, cont\u00e9m uma s\u00e9rie de evid\u00eancias f\u00edsicas, qu\u00edmicas e biol\u00f3gicas que os cientistas podem analisar em laborat\u00f3rio para inferir como era o mundo \u00e0 \u00e9poca em que aquela camada estava na superf\u00edcie. Fazendo uma analogia, \u00e9 como se voc\u00ea enfiasse um canudo num bolo para tirar uma amostra das suas camadas e descobrir do que cada uma delas \u00e9 feita.<\/p>\n<p>\u201cEssas rochas e sedimentos funcionam como um arquivo da hist\u00f3ria da Amaz\u00f4nia\u201d, diz o professor Andr\u00e9 Sawakuchi, do Instituto de Geoci\u00eancias (IGc) da USP, que coordena o bra\u00e7o brasileiro da iniciativa. O Projeto de Perfura\u00e7\u00e3o Transamaz\u00f4nica (TADP, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 uma iniciativa do International Continental Scientific Drilling Program (ICDP) \u2014 um programa internacional de apoio a projetos de perfura\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com sede na Alemanha \u2014, realizada em colabora\u00e7\u00e3o com\u00a0 a National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos; o Smithsonian Tropical Research Institute, sediado no Panam\u00e1; e a Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), no Brasil.<\/p>\n<p>O custo previsto da perfura\u00e7\u00e3o \u00e9 de aproximadamente US$ 4 milh\u00f5es. A Fapesp contribuiu com um quarto desse valor, mais um investimento de R$ 1 milh\u00e3o em bolsas de pesquisa e recursos para log\u00edstica, aquisi\u00e7\u00e3o de materiais e outras despesas.<\/p>\n<p>O primeiro testemunho foi retirado do solo de Rodrigues Alves por volta das 15h30 desta sexta-feira, hor\u00e1rio do Acre (17h30 no hor\u00e1rio de Bras\u00edlia). Foi um momento de ansiedade para os pesquisadores, ap\u00f3s v\u00e1rios anos de planejamento e prepara\u00e7\u00e3o. \u201cFoi um al\u00edvio come\u00e7ar a sondagem, sem d\u00favida; mas ainda temos um longo caminho pela frente\u201d, relata Sawakuchi, que foi ao Acre para coordenar o in\u00edcio dos trabalhos, ao lado dos colegas estrangeiros. A perfura\u00e7\u00e3o deve se tornar especialmente desafiadora a partir dos 500 metros de profundidade, segundo ele.<\/p>\n<p><strong>Perfura\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho de perfura\u00e7\u00e3o \u2014 ou sondagem, na linguagem mais t\u00e9cnica \u2014 utilizar\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o adaptada de equipamentos normalmente empregados para a prospec\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e de \u00f3leo e g\u00e1s natural \u2014 duas coisas que os pesquisadores esperam n\u00e3o encontrar de jeito nenhum, pois criaria uma s\u00e9rie de complica\u00e7\u00f5es adicionais para o trabalho, incluindo riscos de seguran\u00e7a. \u201cN\u00e3o podemos de maneira alguma permitir que haja um vazamento de g\u00e1s no po\u00e7o\u201d, explica Andr\u00e9 Sawakuchi. A empresa contratada para fazer a sondagem \u00e9 a Geosol, de Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Em vez de uma broca tradicional, que vai triturando a rocha \u00e0 medida que avan\u00e7a na perfura\u00e7\u00e3o, a sondagem, neste caso, \u00e9 feita com uma coroa vazada, que desce cortando a rocha \u201cpelas beiradas\u201d para preservar a integridade das amostras no centro do tubo. Cada testemunho ter\u00e1 entre cinco e nove cent\u00edmetros (cm) de di\u00e2metro, dependendo das condi\u00e7\u00f5es de perfura\u00e7\u00e3o. Logo que saem do po\u00e7o, as amostras s\u00e3o entregues aos pesquisadores para serem inspecionadas, catalogadas e repartidas em peda\u00e7os menores, de 1,5 metro de comprimento (tamanho padr\u00e3o adotado pelo ICDP para esse tipo de amostra).<\/p>\n<p>S\u00f3 a perfura\u00e7\u00e3o do Acre, portanto, dever\u00e1 gerar mais de 1.300 testemunhos. \u201cIsso \u00e9 muitas vezes mais do que qualquer coisa que foi feita at\u00e9 hoje para entender essa origem da Amaz\u00f4nia na perspectiva geol\u00f3gica\u201d, aponta Andr\u00e9 Sawakuchi. Muitas perfura\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram feitas na Amaz\u00f4nia pela Petrobras e outras empresas no passado, diz ele; mas nunca com finalidades cient\u00edficas, seguindo os protocolos necess\u00e1rios para esse tipo de pesquisa. O material de refer\u00eancia usado pelos cientistas atualmente \u00e9 da d\u00e9cada de 1970, coletado pelo Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil para a prospec\u00e7\u00e3o de jazidas de carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesquisadores vinculados ao projeto ter\u00e3o exclusividade de acesso ao material num primeiro momento; depois as amostras ser\u00e3o abertas a toda a comunidade cient\u00edfica nacional e internacional.<\/p>\n<p>\u201cA Amaz\u00f4nia \u00e9 a regi\u00e3o de maior biodiversidade da Terra. Mas como ela ficou assim? E ser\u00e1 que continuar\u00e1 assim?\u201d, s\u00e3o algumas das perguntas que o professor Paul Baker, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, espera responder com as amostras. Ele \u00e9 um dos idealizadores do projeto dentro do ICDP, ao lado de Sheri Fritz, da Universidade de Nebraska, e do brasileiro Cleverson Silva, da Universidade Federal Fluminense.<\/p>\n<p>\u201cO projeto examina as origens da Floresta Amaz\u00f4nica e como sua evolu\u00e7\u00e3o ao longo de milh\u00f5es de anos foi influenciada pela eleva\u00e7\u00e3o dos Andes, pelo desenvolvimento do sistema do Rio Amazonas e pela variabilidade clim\u00e1tica\u201d, afirma Sheri Fritz. \u201cEstas s\u00e3o quest\u00f5es centen\u00e1rias que foram feitas pelos primeiros naturalistas, incluindo Darwin, Agassiz, Wallace e Von Humboldt. Apesar de muitos anos de pesquisa, por\u00e9m, ainda n\u00e3o conhecemos muitos dos componentes cr\u00edticos dessa hist\u00f3ria. Isso ocorre, em parte, porque trabalhamos principalmente na superf\u00edcie da Terra, onde os dep\u00f3sitos s\u00e3o facilmente acess\u00edveis, mas incompletos. Assim, planejamos perfurar profundamente os sedimentos abaixo da superf\u00edcie para recuperar uma longa hist\u00f3ria cont\u00ednua nas margens leste e oeste da Bacia Amaz\u00f4nica.\u201d<\/p>\n<p><strong>De volta \u00e0s origens<\/strong><\/p>\n<p>O projeto original previa cinco locais de perfura\u00e7\u00e3o, mas o encarecimento de v\u00e1rios itens e servi\u00e7os nos \u00faltimos anos obrigou os pesquisadores a reduzir o plano para dois. Ainda assim, s\u00e3o dois pontos estrat\u00e9gicos, que j\u00e1 permitir\u00e3o contar muita coisa sobre o passado da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA Bacia Amaz\u00f4nica abriga v\u00e1rios dep\u00f3sitos sedimentares \u2014 as chamadas \u2018bacias\u2019 do Acre, Solim\u00f5es, Amazonas, Maraj\u00f3 e Foz do Amazonas\u201d, explica Paul Baker. \u201cAo contr\u00e1rio da maioria das regi\u00f5es continentais do mundo, onde a eros\u00e3o das rochas em terra produz sedimentos que s\u00e3o transportados pelos rios para serem depositados nos oceanos, a eros\u00e3o da Cordilheira dos Andes e de muitas regi\u00f5es da pr\u00f3pria Amaz\u00f4nia produz sedimentos que s\u00e3o depositados nessas \u2018bacias\u2019 continentais, lugares onde a crosta da Terra afundou por milh\u00f5es de anos, acumulando centenas a milhares de metros de sedimentos. \u00c9 esse sedimento que vamos recuperar por meio dos testemunhos.\u201d<\/p>\n<p>Como as camadas de solo se sobrep\u00f5em ao longo do tempo, elas seguem uma ordem cronol\u00f3gica: quanto mais profunda a amostra, mas antiga ela \u00e9. Tanto no caso do Acre quanto do Maraj\u00f3, os cientistas calculam que a perfura\u00e7\u00e3o os levar\u00e1 \u00e0 fronteira do fim do per\u00edodo Cret\u00e1ceo e in\u00edcio da Era Cenozoica, 65,5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, quando a Terra estava emergindo de uma sequ\u00eancia catacl\u00edsmica de eventos que levou \u00e0 extin\u00e7\u00e3o de grande parte das esp\u00e9cies existentes \u00e0 \u00e9poca \u2014 tanto da flora quanto da fauna, incluindo quase todos os dinossauros \u2014 e reconfigurou os ecossistemas do planeta como um todo.<\/p>\n<p>Foi nesse per\u00edodo que a Amaz\u00f4nia como a conhecemos hoje come\u00e7ou a se formar, diz a professora L\u00facia Lohmann, do Departamento de Bot\u00e2nica do Instituto de Bioci\u00eancias (IB) da USP. Um dos itens mais importantes que ela e outros pesquisadores esperam extrair dos testemunhos s\u00e3o amostras de p\u00f3len fossilizado das diferentes plantas que compuseram a flora amaz\u00f4nica ao longo desses milh\u00f5es de anos, fornecendo evid\u00eancias diretas de como a biodiversidade da floresta evoluiu no decorrer do tempo, em sincronia (ou n\u00e3o) com fen\u00f4menos geol\u00f3gicos, ambientais e clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Alguns desses grandes eventos do passado j\u00e1 s\u00e3o conhecidos dos cientistas. No in\u00edcio da Era Cenozoica, segundo L\u00facia Lohmann, acredita-se que toda a Am\u00e9rica do Sul era coberta de florestas \u00famidas. Essa paisagem come\u00e7ou a mudar radicalmente cerca de 30 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, com a forma\u00e7\u00e3o da chamada Diagonal Seca, uma faixa de biomas mais \u00e1ridos que corta o continente nas regi\u00f5es que hoje correspondem \u00e0 Caatinga, ao Cerrado e ao Chaco. A parte norte da Cordilheira dos Andes, que faz fronteira com a Amaz\u00f4nia, come\u00e7ou a soerguer com maior velocidade cerca de 23 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, tamb\u00e9m desencadeando mudan\u00e7as radicais no clima, na hidrogeologia e, consequentemente, na biodiversidade da regi\u00e3o. O Rio Amazonas mudou de dire\u00e7\u00e3o, passando a desaguar no Oceano Atl\u00e2ntico, e houve longos per\u00edodos em que a Amaz\u00f4nia foi alagada por grandes incurs\u00f5es de \u00e1gua doce e at\u00e9 salgada, oriunda do Mar do Caribe.<\/p>\n<p>Os novos testemunhos, por\u00e9m, permitir\u00e3o reconstruir essa hist\u00f3ria com um n\u00edvel de detalhamento muito maior. \u201cEntender o que aconteceu no passado \u00e9 essencial para que possamos prever melhor o futuro e nos prepararmos para as mudan\u00e7as que est\u00e3o por vir\u201d, afirma L\u00facia Lohmann. Ela e o professor Renato Paes de Almeida, do IGc, s\u00e3o os pesquisadores principais no bra\u00e7o brasileiro do projeto, que Andr\u00e9 Sawakuchi coordena dentro do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Globais.<\/p>\n<p>Paralelamente ao TADP, um outro grande projeto internacional de pesquisa da hist\u00f3ria geol\u00f3gica e clim\u00e1tica da regi\u00e3o est\u00e1 em curso no Oceano Atl\u00e2ntico, com participa\u00e7\u00e3o de cientistas da USP e de outras universidades brasileiras, a bordo do navio de pesquisa franc\u00eas Marion Dufresne. \u00c9 a expedi\u00e7\u00e3o Amaryllis-Amagas, que vai coletar amostras profundas de sedimento marinho na regi\u00e3o da foz do Amazonas e v\u00e1rios outros pontos da costa norte e nordeste do Brasil. V\u00e1rios dos pesquisadores envolvidos no TADP tamb\u00e9m participam desse projeto, cujos dados poder\u00e3o ser combinados com os dos testemunhos terrestres para melhorar ainda mais a resolu\u00e7\u00e3o dos resultados de ambas as iniciativas. O bra\u00e7o paulista da expedi\u00e7\u00e3o \u00e9 coordenado pelo professor Cristiano Chiessi, da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades (EACH) da USP, com apoio da Fapesp.<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da USP<\/p>\n<p>Link &#8211;\u00a0 <a href=\"https:\/\/shorturl.at\/ny278\" class=\"autohyperlink\">shorturl.at\/ny278<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma equipe internacional de pesquisadores iniciou nesta sexta-feira (16 de junho) a perfura\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o de dois quil\u00f4metros de profundidade no Acre, que, se tudo der certo, dever\u00e1 funcionar como um \u201ct\u00fanel do tempo\u201d para enxergar como era a vida na Amaz\u00f4nia at\u00e9 65 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, logo ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros. 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