{"id":116508,"date":"2023-12-04T11:57:46","date_gmt":"2023-12-04T15:57:46","guid":{"rendered":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/?p=116508"},"modified":"2023-12-04T12:08:35","modified_gmt":"2023-12-04T16:08:35","slug":"reflorestamento-com-especies-nativas-pode-contemplar-agenda-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/reflorestamento-com-especies-nativas-pode-contemplar-agenda-economica\/","title":{"rendered":"Reflorestamento com esp\u00e9cies nativas pode contemplar agenda econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p>Uma pesquisa do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP sondou \u00e1reas de restaura\u00e7\u00e3o florestal e reuniu informa\u00e7\u00f5es sobre a potencialidade de projetos de reflorestamento alinhados com uma agenda bioecon\u00f4mica. Os pesquisadores tra\u00e7aram modelos de crescimento e elaboraram cen\u00e1rios visando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de madeira a partir de 10 esp\u00e9cies de \u00e1rvores nativas da Mata Atl\u00e2ntica que n\u00e3o s\u00f3 demonstram uma poss\u00edvel rentabilidade, mas tamb\u00e9m contribuem para a restaura\u00e7\u00e3o do ecossistema atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Projetos de reflorestamento constituem a reformula\u00e7\u00e3o de uma estrutura florestal em uma regi\u00e3o devastada por meio do plantio de novas \u00e1rvores, sejam elas pr\u00f3prias da vegeta\u00e7\u00e3o do local ou esp\u00e9cies fora de sua ocorr\u00eancia natural. De acordo com a Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no per\u00edodo entre outubro de 2021 e outubro de 2022, mais de 20 mil hectares de Mata Atl\u00e2ntica foram desmatados. Essa foi a segunda maior taxa de desmatamento registrada nos \u00faltimos seis anos no bioma, que possui apenas 12,4% de sua composi\u00e7\u00e3o original de p\u00e9. Na tentativa de recuperar as \u00e1reas de floresta perdidas, pol\u00edticas de reflorestamento surgem como op\u00e7\u00f5es no campo ambiental.<\/p>\n<p>Contudo, tais projetos encontram resist\u00eancia entre os produtores rurais. \u201cA restaura\u00e7\u00e3o florestal ainda \u00e9 percebida por propriet\u00e1rios de terra como um uso de terra muito custoso, sem um retorno financeiro atrativo. Ent\u00e3o, a ideia era unir a agenda econ\u00f4mica com a agenda da recupera\u00e7\u00e3o do bioma\u201d, explica Pedro Krainovic, p\u00f3s-doutorando do IEA, ao Jornal da USP.<\/p>\n<p>O pesquisador considerou 13 \u00e1reas de planta\u00e7\u00e3o de restaura\u00e7\u00e3o nas quais havia a presen\u00e7a das esp\u00e9cies escolhidas para an\u00e1lise. Al\u00e9m disso, foram escolhidas zonas que apresentavam \u00e1rvores de idades que variam entre 6 a 96 anos, a fim de criar uma linha do tempo que representasse o desempenho de seu crescimento \u2013 e assim estimar sua produtividade e retorno econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Agenda bioecon\u00f4mica<\/p>\n<p>Para realizar esse c\u00e1lculo foi utilizado o m\u00e9todo Growth-Oriented Logging (GOL), que consiste na cria\u00e7\u00e3o de uma escala utilizando o potencial produtivo e tempo de crescimento da esp\u00e9cie. \u201cO GOL orienta o corte de \u00e1rvores pelo seu crescimento; o que significa que ele seleciona o melhor momento para orientar decis\u00f5es de manejo direcionadas\u201d, explica Krainovic. A metodologia possibilita o estabelecimento de um cen\u00e1rio otimizado centrado na qualidade da madeira, indicando qual \u00e9 o melhor momento para sua colheita.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, as informa\u00e7\u00f5es trazidas pelo GOL contribuem para o preenchimento de uma lacuna de conhecimento na elabora\u00e7\u00e3o de projetos de reflorestamento com esp\u00e9cies nativas. \u201cBuscando conhecimento acerca da proje\u00e7\u00e3o de crescimento dessas \u00e1rvores nativas, a possibilidade de implementa\u00e7\u00e3o e atratividade dessas iniciativas aumenta, criando um contexto de concilia\u00e7\u00e3o entre florestas multifuncionais com um retorno econ\u00f4mico.\u201d<\/p>\n<p>Florestas multifuncionais s\u00e3o \u00e1reas de restaura\u00e7\u00e3o florestal que harmonizam a explora\u00e7\u00e3o de madeira com o restabelecimento dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos de um determinado bioma \u2013 como a reciclagem de nutrientes, a poliniza\u00e7\u00e3o e outras fun\u00e7\u00f5es afetadas pelo desmatamento.<\/p>\n<p>O trabalho ainda fez a estimativa da produtividade dentro de um contexto com condi\u00e7\u00f5es ideais para o crescimento das esp\u00e9cies, como a aplica\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas silviculturais, para mostrar a otimiza\u00e7\u00e3o do retorno financeiro que o manejo adequado dessas \u00e1reas pode trazer aos produtores. \u201cModelamos um novo cen\u00e1rio, s\u00f3 que utilizando um conhecimento silvicultural apropriado come\u00e7ando desde o in\u00edcio da cadeia de infraestrutura. O manejo ao longo do tempo, a marca\u00e7\u00e3o de matrizes, o espa\u00e7amento ideal entre as mudas, as condi\u00e7\u00f5es de solo \u2013 tudo contribui para a potencializa\u00e7\u00e3o dos resultados\u201d, diz Krainovic.<\/p>\n<p>Import\u00e2ncia multifacetada<\/p>\n<p>O reflorestamento \u00e9 uma importante pol\u00edtica ecol\u00f3gica n\u00e3o s\u00f3 para recupera\u00e7\u00e3o florestal de determinados biomas, mas para o meio ambiente como um todo. \u201cHoje a humanidade passa por diversas crises ambientais, que decorrem da destrui\u00e7\u00e3o dos recursos e ecossistemas nativos. Um caminho para resolver parte dessas crises consiste justamente em devolver esses ecossistemas naturais\u201d, explica Pedro Brancalion, professor do Departamento de Ci\u00eancias Florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.<\/p>\n<p>Atualmente, o Novo C\u00f3digo Florestal, legisla\u00e7\u00e3o que regulamenta a explora\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa no territ\u00f3rio brasileiro, prev\u00ea a conserva\u00e7\u00e3o de \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente (APPs) e Reservas Legais (RL) nas propriedades rurais. As APPs s\u00e3o espa\u00e7os com a fun\u00e7\u00e3o ambiental de preservar a estabilidade geol\u00f3gica e os recursos h\u00eddricos das paisagens, como as matas ciliares e os manguezais. J\u00e1 as RL t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de resguardar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa por meio do uso econ\u00f4mico sustent\u00e1vel dos recursos naturais da propriedade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, embora sejam obrigat\u00f3rias, as Reservas Legais muitas vezes n\u00e3o s\u00e3o implementadas pelos donos de terras, que recorrem a outras possibilidades de cumprir com as normas ambientais, as chamadas compensa\u00e7\u00f5es. Mesmo assim, de acordo com estimativas feitas pelo GeoLab, do Departamento de Ci\u00eancia do Solo da Esalq, o Estado de S\u00e3o Paulo tem um d\u00e9ficit de 800 mil hectares de Reserva Legal e \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 mais vantajoso compensar essa Reserva Legal fora da propriedade numa \u00e1rea de floresta do que trocar \u00e1reas produtivas por um processo de recupera\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, esse estudo nos ajuda a desenvolver modelos de restaura\u00e7\u00e3o que possam viabilizar no futuro a recupera\u00e7\u00e3o de forma rent\u00e1vel\u201d, coloca Brancalion.<\/p>\n<p>Biota S\u00edntese<\/p>\n<p>O estudo integra o N\u00facleo de An\u00e1lise e S\u00edntese de Solu\u00e7\u00f5es Baseadas na Natureza, o Biota S\u00edntese. Financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), o Biota conta com a colabora\u00e7\u00e3o de pesquisadores de cinco universidades, sete institutos de pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo e quatro Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais. O projeto, que tem sua sede no IEA, tem como objetivo orientar as tomadas de decis\u00f5es com s\u00ednteses sobre solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza.<\/p>\n<p>Conciliando o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais com a agenda econ\u00f4mica, o Biota opera junto \u00e0 Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Log\u00edstica (Semil), respons\u00e1vel pelo Plano de A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica (PAC) do Estado. O PAC visa apoiar a realiza\u00e7\u00e3o dos compromissos nacionais estabelecidos no Acordo de Paris e estabelece por si algumas metas a serem atingidas at\u00e9 o ano de 2050, como a redu\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de Gases de Efeito Estufa (GEE).<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, as informa\u00e7\u00f5es obtidas pelo estudo integrar\u00e3o o programa Refloresta SP, coordenado pela Semil e previsto no PAC, que prev\u00ea a restaura\u00e7\u00e3o de 1,5 milh\u00e3o de hectares em vegeta\u00e7\u00e3o nativa. \u201cO programa tem um aplicativo que oferece para os usu\u00e1rios o menu de restaura\u00e7\u00e3o florestal economicamente vi\u00e1vel, que \u00e9 uma ferramenta que apresenta esp\u00e9cies de composi\u00e7\u00e3o para realizar essa restaura\u00e7\u00e3o. Meus dados v\u00e3o estar dentro do aplicativo para dar suporte a essas ferramentas no Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, explica Krainovic.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa foram divulgados no artigo Potential native timber production in tropical forest restoration plantations, publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation.<\/p>\n<p>Uma pesquisa que expandiu o estudo vinculado ao artigo foi ganhadora do 8\u00b0 Pr\u00eamio Servi\u00e7o Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal. Ela foi desenvolvida no Laborat\u00f3rio de Ecologia e Restaura\u00e7\u00e3o Florestal (Lerf), da Esalq-USP, de autoria do pesquisador Jo\u00e3o Paulo Bispo, que foi entrevistado pelo podcast Esta\u00e7\u00e3o Esalq. \u00c9 poss\u00edvel conferir o programa aqui.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es: e-mail <a href=\"mailto:pedrokrainovic@usp.br\" class=\"autohyperlink\">pedrokrainovic@usp.br<\/a>, com Pedro Krainovic; e-mail <a href=\"mailto:pedrobrancalion@gmail.com\" class=\"autohyperlink\">pedrobrancalion@gmail.com<\/a>, com Pedro Brancalion<\/p>\n<p>*Estagi\u00e1ria, sob orienta\u00e7\u00e3o de Luiza Caires<\/p>\n<p>**Estagi\u00e1ria, sob supervis\u00e3o de Mois\u00e9s Dorado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Jornal da USP<\/p>\n<p>Link:<a href=\"https:\/\/shorturl.at\/deqE1\"> shorturl.at\/deqE1<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pesquisa do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP sondou \u00e1reas de restaura\u00e7\u00e3o florestal e reuniu informa\u00e7\u00f5es sobre a potencialidade de projetos de reflorestamento alinhados com uma agenda bioecon\u00f4mica. 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