{"id":29489,"date":"2012-07-23T12:36:08","date_gmt":"2012-07-23T12:36:08","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T04:00:00","slug":"geologo-destaca-a-importancia-da-camada-superficial-de-solos-para-a-engenharia-29489","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/geologo-destaca-a-importancia-da-camada-superficial-de-solos-para-a-engenharia-29489\/","title":{"rendered":"Ge\u00f3logo destaca a import\u00e2ncia da camada superficial de solos para a engenharia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/crea-am.org.br\/img\/upload\/not120723solos.jpg\" \/><br \/>Na verdade, h\u00e1 dois selos naturais protetores dos terrenos contra os delet\u00e9rios processos da lixivia\u00e7\u00e3o e da eros\u00e3o, a cobertura vegetal e os solos superficiais. Vamos considerar que para a implanta\u00e7\u00e3o de empreendimentos humanos, sejam eles rurais ou urbanos, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o desfazermo-nos do primeiro selo, a vegeta\u00e7\u00e3o natural (e vamos todos torcer para que isso seja feito com responsabilidade e discernimento), o que nos conduz \u00e0 indispens\u00e1vel obriga\u00e7\u00e3o de melhor conhecer, nos seus mais diversos aspectos, o segundo selo, os solos superficiais.Ainda que de forma resumida, cabe, de in\u00edcio, esclarecer uma quest\u00e3o terminol\u00f3gica. Os ge\u00f3logos de engenharia e os agr\u00f4nomos usam termos diferentes para classificar os diferentes estratos de solos. Os primeiros adotam a seguinte s\u00e9rie para o que denominam de camadas: solo org\u00e2nico (camada superficial dessim\u00e9trica rica em mat\u00e9ria org\u00e2nica) solo superficial (camada bastante afetada pelo intemperismo e pelos processos de lateriza\u00e7\u00e3o e pedog\u00eanese, cuja espessura varia de 0,5 m a alguns metros) solo saprol\u00edtico ou solo de altera\u00e7\u00e3o de rocha (camada de solo com minerais j\u00e1 em razo\u00e1vel est\u00e1gio de altera\u00e7\u00e3o f\u00edsico-quimica, mas que guarda v\u00e1rias fei\u00e7\u00f5es herdadas da rocha original, com espessuras extremamente vari\u00e1veis, desde dec\u00edmetros at\u00e9 mais de uma dezena de metros) finalmente, com profundidade praticamente ilimitada, rocha pouco alterada ou s\u00e3.J\u00e1 os agr\u00f4nomos, que ao inv\u00e9s de camada usam o termo horizonte, classificam a mesma sequ\u00eancia com as seguintes denomina\u00e7\u00f5es: horizonte A, horizonte B, horizonte C e rocha, agregando \u00e0s propriedades descritas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do comportamento agron\u00f4mico destes solos.Em regra, a camada de solo superficial (horizonte B agron\u00f4mico), fortemente intemperizada, tem uma composi\u00e7\u00e3o bem mais argilosa do que as camadas inferiores (solo saprol\u00edtico &#8211; horizonte C agron\u00f4mico), onde predominam granulo metricamente os siltes e as areias, especialmente considerado o perfil de solos t\u00edpico das forma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas cristalinas (rochas magm\u00e1ticas e metam\u00f3rficas).\u00a0Essa composi\u00e7\u00e3o mais argilosa lhe confere uma forte coes\u00e3o entre part\u00edculas, conferindo-lhe, por conseguinte, mais resistente aos processos erosivos de superf\u00edcie e melhores propriedades geot\u00e9cnicas de uma forma geral. Vale lembrar que a argila \u00e9 o tipo de solo formado por minerais com a granulometria mais fina (o di\u00e2metro das part\u00edculas \u00e9 inferior a 0,002 mm), o que resulta em uma propriedade altamente ligante, ou seja, a argila d\u00e1 coes\u00e3o aos gr\u00e3os minerais formadores dos solos.\u00c9 interessante a explica\u00e7\u00e3o do motivo pelo qual h\u00e1 mais minerais argilosos na proximidade da superf\u00edcie dos terrenos. Os minerais das rochas prim\u00e1rias (magm\u00e1ticas ou metam\u00f3rficas) formaram-se em condi\u00e7\u00f5es extremas de temperatura e press\u00e3o. Ou seja, s\u00e3o ambientalmente compat\u00edveis com essas condi\u00e7\u00f5es extremas e, portanto, francamente desarm\u00f4nicos com as condi\u00e7\u00f5es ambientais hoje vigentes na superf\u00edcie do planeta. O processo de altera\u00e7\u00e3o de uma rocha \u00e9, assim, um processo qu\u00edmico e f\u00edsico-qu\u00edmico que caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de novos minerais, mais compat\u00edveis com o meio ambiente da superf\u00edcie. Desses novos minerais, os mais equilibrados com esse novo ambiente s\u00e3o os argilosos.Al\u00e9m do intemperismo (desagrega\u00e7\u00e3o e decomposi\u00e7\u00e3o f\u00edsico-qu\u00edmica dos minerais da rocha), dois outros fen\u00f4menos s\u00e3o importantes na forma\u00e7\u00e3o dos solos superficiais e influem em suas caracter\u00edsticas. A pedog\u00eanese, que envolve altera\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica dos minerais, e a lateriza\u00e7\u00e3o, que implica a migra\u00e7\u00e3o de \u00edons no interior do solo. Ambos os fen\u00f4menos contribuem para a produ\u00e7\u00e3o de minerais argilosos e para a cimenta\u00e7\u00e3o das part\u00edculas por diversas classes de \u00f3xidos, o que concorre tamb\u00e9m para uma maior liga\u00e7\u00e3o entre as part\u00edculas desses solos. Gra\u00e7as a esses fatores, os solos superficiais (horizonte B agron\u00f4mico) de rochas cristalinas e de muitas rochas sedimentares chegam a ser 30 vezes mais argilosos do que os solos das camadas inferiores e at\u00e9 100 vezes mais resistentes \u00e0 eros\u00e3o.No meio rural h\u00e1 um problema adicional grave: o desmatamento para explora\u00e7\u00e3o de madeira, para avan\u00e7o de atividades agr\u00edcolas ou pecu\u00e1rias, o revolvimento cont\u00ednuo dos solos superficiais e a n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas conservacionistas de cultivo, entre outros procedimentos, fazem com que os principais elementos nutritivos desses solos sejam lixiviados (carreados por percola\u00e7\u00e3o de \u00e1gua), o que os torna progressivamente est\u00e9reis para a agricultura. Tal defici\u00eancia em parte s\u00f3 pode ser compensada mediante expressivo gasto com fertilizantes, corretivos e defensivos agr\u00edcolas. Entre as t\u00e9cnicas conservacionistas de cultivo, destacam-se o emprego de curvas de n\u00edvel, o plantio direto, a rota\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o de culturas.Do ponto de vista econ\u00f4mico, os processos erosivos em \u00e1reas rurais e urbanas brasileiras acarretam preju\u00edzos da ordem de bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano para o pa\u00eds. A perda m\u00e9dia de solos por eros\u00e3o superficial nas \u00e1reas rurais utilizadas para atividades agropecu\u00e1rias no Brasil \u00e9 estimada em 25 toneladas de solo por hectare em um ano. Isso significa a perda de algo pr\u00f3ximo a um bilh\u00e3o de toneladas de solo por ano, o que, para tornar o desastre ainda maior, promove intenso assoreamento de cursos d\u00b4\u00e1gua, lagos e v\u00e1rzeas. Na \u00e1rea rural a eros\u00e3o laminar, a eros\u00e3o em sulcos, as ravinas e as bossorocas constituem os processos erosivos respons\u00e1veis por esse desastre.Nas cidades o principal fator de remo\u00e7\u00e3o da camada superficial de solos est\u00e1 na danosa cultura da terraplenagem, implementada de forma intensa, extensa e despropositada nas frentes de expans\u00e3o urbana, via de regra removendo por completo os solos superficiais e expondo \u00e0 eros\u00e3o os solos mais sens\u00edveis das camadas inferiores. As extensas terraplenagens s\u00e3o parte de uma pregui\u00e7osa e irrespons\u00e1vel cultura tecnol\u00f3gica pela qual se busca adaptar a natureza \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es de projetos-padr\u00e3o, ao inv\u00e9s decriativamente, adaptar os projetos \u00e0 natureza (no caso, o relevo) das \u00e1reas onde s\u00e3o implantados.Importante ter em conta que j\u00e1 h\u00e1 hoje \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos empreendedores tecnologias e conhecimentos que permitiriam a plena ado\u00e7\u00e3o do conceito de eros\u00e3o zero na \u00e1rea urbana, como arranjos urban\u00edsticos e arquitet\u00f4nicos adequados a terrenos de topografia mais acidentada, t\u00e9cnicas de planejamento de servi\u00e7os de terraplenagem, expedientes de estocagem e reutiliza\u00e7\u00e3o do solo superficial e t\u00e9cnicas de drenagem e prote\u00e7\u00e3o de taludes contra a eros\u00e3o, como a t\u00e9cnica Cal-Jet de pulveriza\u00e7\u00e3o de calda de cal que, por seu baixo custo, permite ser utilizada como prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria de taludes j\u00e1 durante os servi\u00e7os de terraplenagem.Para se ter uma ideia desse caos geot\u00e9cnico, na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo a perda m\u00e9dia de solos por eros\u00e3o est\u00e1 estimada em algo pr\u00f3ximo a 13,5 m\u00b3 de solo por hectare\/ano, do decorre a produ\u00e7\u00e3o anual por eros\u00e3o de at\u00e9 8.100.000 m\u00b3\/ano de sedimentos e sua decorrente libera\u00e7\u00e3o para o assoreamento da rede de drenagem natural e constru\u00edda. Especialmente as fra\u00e7\u00f5es arenosas desse volume (3.250.000 m\u00b3) se depositam nos leitos de rios e c\u00f3rregos, e as fra\u00e7\u00f5es silto-argilosas (4.850.000 m\u00b3) s\u00e3o levadas em suspens\u00e3o e depositadas mais \u00e0 frente ou em condi\u00e7\u00f5es de \u00e1guas paradas ou lentas. O assoreamento chega a comprometer at\u00e9 80% da capacidade de vaz\u00e3o das drenagens urbanas constituindo-se hoje em uma das principais causas de nossas enchentes.Enfim, os preju\u00edzos para a sociedade brasileira advindos da remo\u00e7\u00e3o e do revolvimento de solos superficiais no meio rural e urbano s\u00e3o de tal magnitude que est\u00e3o a exigir uma verdadeira cruzada tecnol\u00f3gica em favor de sua preserva\u00e7\u00e3o. Tal campanha dever\u00e1 ser promovida pelo poder p\u00fablico, em todos os n\u00edveis, e pelos empreendimentos privados diretamente envolvidos com o problema. Mas, certamente, a primeira iniciativa caber\u00e1 ao meio t\u00e9cnico-cient\u00edfico do pa\u00eds.\u00c1lvaro Rodrigues dos Santos (<a href=\"mailto:santosalvaro@uol.com.br\" class=\"autohyperlink\">santosalvaro@uol.com.br<\/a>) \u00e9 ex-diretor de Planejamento e Gest\u00e3o do IPT e ex-diretor da Divis\u00e3o de Geologia, autor dos livros &#8220;Geologia de Engenharia: Conceitos, M\u00e9todo e Pr\u00e1tica&#8221;, &#8220;A Grande Barreira da Serra do Mar&#8221;, &#8220;Cubat\u00e3o&#8221;, &#8220;Di\u00e1logos Geol\u00f3gicos&#8221; e &#8220;Enchentes e Deslizamentos: Causas e Solu\u00e7\u00f5es&#8221;, al\u00e9m de vencedor do Pr\u00eamio Ernesto Pichler da Geologia de Engenharia e consultor em geotecnia.Fonte: Revista Tecnhe<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instado por colegas, que consideram uma mais ampla veicula\u00e7\u00e3o do tema de grande utilidade e pertin\u00eancia, animo-me a trazer novamente \u00e0 baila as importantes singularidades t\u00e9cnicas de nossos solos superficiais. Conservar intacta a camada superficial de solos, evitando revolv\u00ea-la ou remov\u00ea-la: no \u00e2mbito da Geologia e da Agronomia talvez n\u00e3o haja recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica mais simples e importante do que essa para orientar as atividades humanas no meio urbano e no meio rural.<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-29489","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29489"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29489\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/crea-am.org.br\/creaam_site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}