“Este grupo de entidades e empresas procurou a academia com uma lista de temas de pesquisa, fruto de uma série de problemas que eles gostariam de ver resolvidos. A partir deste contato, ao invés de uma série de estudos isolados, foi pensada uma pesquisa maior, articulada, capaz de oferecer respostas sistêmicas às necessidades apresentadas”, explica o professor Vanderley Moacyr John, da Poli/USP.
O consórcio está viabilizando o desenvolvimento de mais de 15 projetos de pesquisa, com foco em diferentes desafios envolvendo o revestimento de edifícios: estudos sobre aderência, fissuração e manchas provocadas por fungos são exemplos. A expectativa é de que o Consitra colabore com a redução das falhas em revestimentos internos e de fachadas, como descolamentos e fissuras, e aumente a vida útil das construções.
Diagnóstico mostra variabilidade
Uma das frentes de pesquisa levou à elaboração de um ´mapa reológico` das argamassas usadas no país. A reologia está relacionada a propriedades como a viscosidade, e interfere na aplicação e na aderência do revestimento.
Para estudo da reologia foram adotadas técnicas de ensaio inovadoras, como o “Squeeze flow”. O método consagrado em áreas como a de alimentos e fármacos foi adaptado para as argamassas de revestimento e mostra, por exemplo, se o material atende requisitos de aplicação.
A técnica permitiu o estudo das propriedades de argamassas usadas por construtoras de diferentes estados. E revelou que há uma grande variabilidade nesse material, com diferenças significativas na quantidade de matérias-primas e ar nas misturas.
Foram encontrados índices de ar incorporado que variam de pouco mais de 4% até quase 30%. As argamassas que apresentam mais ar em sua composição são, provavelmente, de fácil espalhamento. No entanto, podem ser fluidas até demais, dificultando a aplicação de camadas mais grossas. Também podem ter o tempo de espera da “puxada” (certo nível de consolidação que permita sarrafeamento e desempeno), prejudicando a produtividade.
“O desenvolvimento de uma metodologia sistemática para a formulação de argamassas requer a conversão da definição de trabalhabilidade em grandezas reológicas mensuráveis”, explica o engenheiro de materiais Rafael Pileggi, um dos pesquisadores envolvidos com os estudos relacionados à reologia das argamassas.
Uso de fibras ainda depende de mais estudos
O mercado vem adotando medidas para melhorar a qualidade das argamassas, mas as alternativas são carentes de confirmação científica e tecnológica. Com o objetivo de evitar fissuras, por exemplo, projetistas e construtores têm adotado soluções como a adição de fibras sintéticas nas argamassas. Entre as fibras empregadas estão as de polipropileno. Com recursos do Consitra, nos laboratórios da USP são realizados experimentos que analisam se essa solução é tecnologicamente viável. Resultados preliminares indicam que a adição de fibras confere um potencial de melhoria no comportamento reológico das argamassas (na prática, facilitam sua aplicação). Além disso, não afetam de forma significativa o comportamento mecânico (grosseiramente simplificando, a resistência da argamassa). Mas para os pesquisadores isso não justifica o uso indiscriminado dessa alternativa. “Identificamos que há diferentes fibras de polipropileno no mercado, que cada uma delas acaba resultando num comportamento distinto da argamassa e nem todos os comportamentos são bons. Por isso, não é possível utilizar indistintamente fibras de polipropileno”, alerta a professora Mércia Barros, da Escola Politécnica da USP, uma das pesquisadoras e coordenadoras do Consitra. Ela explica que os estudos buscam identificar quais são as características da fibra que realmente influenciam e que poderiam ser controladas na busca da melhoria das argamassas.
Os estudos já permitiram a elaboração de orientações sobre aspectos como o melhor método de adicionar fibras à argamassa para que a mistura seja eficiente, e a proporção de fibras que é possível usar sem prejudicar o desempenho do revestimento. Os dados foram publicados na Revista Techne. As pesquisas continuam, inclusive com o estudo de outros tipos de fibras, como as de vidro.
Avanço em ensaios e normas
Permitindo o equipamento de laboratórios e a formação de recursos humanos, o Consitra também colabora com o avanço dos métodos de avaliação das argamassas, estratégicos para que se possa chegar a novas propostas de formulações. O objetivo de adicionar fibras às argamassas é tentar evitar um dos problemas mais comuns nas fachadas: as fissuras. Mas avaliar o risco de fissuração de revestimentos de argamassa não é algo simples de ser feito e a falta de padronização nos testes laboratoriais compromete a confiabilidade destes estudos.
Para iniciar os estudos nesta frente de trabalho, o consórcio viabilizou uma pesquisa que avaliou o grau de confiança associado a cada metodologia de ensaio para determinação do chamado ´módulo de deformação de argamassas`. Neste estudo a equipe preocupou-se também com a capacidade de repetição do ensaio. O resultado levou à elaboração de um texto base para avaliação desse módulo. A partir da organização do material foi montada uma comissão no âmbito da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que, após discussão da metodologia proposta, definiu um padrão normativo que está em fase final de votação.
“A normalização técnica é fundamental. Ela possibilita padronizar procedimentos e ter resultados que possam ser comparáveis”, explica a professora Mércia. Segundo ela, no mercado há uma confusão muito grande para a medição da capacidade de deformação das argamassas. Cada pesquisador avalia de uma maneira, utiliza ensaios e corpos de prova diferentes. O Consitra colabora buscando confiabilidade nos experimentos e análises necessárias ao avanço do conhecimento sobre as argamassas.
Novos estudos e conquistas
Problemas relacionados à falta de aderência entre o revestimento e a base também são investigados. Nos estudos realizados pela equipe da Universidade Federal de Goiânia, os resultados alcançados permitiram a proposição de um texto normativo para a revisão da norma de ensaio de avaliação da aderência de revestimentos – mais um experimento estratégico que não é completamente padronizado. Existe uma norma que permite diferentes procedimentos e isto tem levado a resultados distintos.
Ainda com foco na aderência, os estudos avaliam diferentes formas de preparar a base para potencializar a fixação. Estão sendo analisados, além do chapisco tradicional, preparado em obra, o chapisco rolado, o chapisco industrializado desempenado (chapisco colante) e outras soluções alternativas. Os estudos levam também ao desenvolvimento de instrumentos. Nas pesquisas com chapiscos, foram confeccionados seis tipos de desempenadeiras que tiveram seu uso comparado ao da convencionalmente utilizada em obra.
Os trabalhos incluem ainda pesquisas sobre a biodeterioração de revestimentos de argamassas, linha que investiga o crescimento de microorganismos nas paredes, pois eles provocam manchas no revestimento. Testes acelerados e de envelhecimento natural em estações implantadas com apoio do Programa Habitare mostram que condições facilitam o ataque e indicam medidas para conter esse tipo de deterioração dos revestimentos internos e das fachadas.
O Consórcio desenvolve tecnologia pré-competitiva e tudo o que é descoberto é publicado em congressos, artigos, dissertações e teses, ou transformado em norma técnica. “Nos primeiros anos de trabalho acumulou-se mais conhecimento sistematizado e comprovado sobre revestimentos do que em muitas décadas”, avalia, referindo-se ao Consitra, o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, professor convidado da Poli-USP, diretor da Tishman Speyer e membro do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Construção do Estado de São Paulo. Em artigo publicado na revista do Sinduscon/SP, ele lembra que os métodos usados para argamassas vinham do concreto, de resistências muito maiores, e com pouca sensibilidade para distinguir e qualificar os revestimentos. “Ou seja, precisávamos fazer engenharia sem ter como medir qualquer das suas variáveis mais elementares”, complementa Ceotto, otimista com o formato de consórcio para o combate desse sério problema da construção civil brasileira.
“A dinâmica estabelecida para os trabalhos permite a colaboração e troca permanente de informações entre pesquisadores e técnicos das empresas parceiras. Há reuniões técnicas mensais para que os resultados obtidos sejam rapidamente analisados, aperfeiçoados e transferidos para a indústria. É uma fórmula de trabalho que demanda compromisso dos pesquisadores com os prazos, e que acelera a transferência dos resultados para a sociedade”, complementa o professor Vanderley John.
“Além de estar produzindo um enorme avanço na produção do conhecimento, o Consitra também se constitui num exemplo de como podemos evoluir rapidamente a engenharia nacional, somando-se esforços e orientando todos os vetores numa mesma direção, um excelente passo na direção do desenvolvimento, que precisa ser repetido em inúmeros outros assuntos”, reforça Ceotto na revista do Sinduscon/SP, em mais um depoimento de confiança e expectativa em relação ao consórcio
Fonte: Revista Habitare
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