
Liderados pelo biólogo holandês Hans ter Steege, Rafael Salomão e Ima Vieira, (pesquisadores da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi) e outros 117 pesquisadores vinculados a Amazon Tree Diversity Network – ATDN (Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia), publicaram artigo na Science, sobre as árvores hiperdominantes da Amazônia. Para os autores, que acumulam décadas de estudos na Floresta Amazônica, a região ainda permanece um enigma em vários sentidos. Até recentemente, os cientistas ainda não sabiam quantas árvores, quantas espécies e quais os territórios que elas se concentram na Amazônia. O artigo “Hyperdominance in the Amazonian Tree Flora” tenta responder a estas e outras questões.O estudo estimou que o número de árvores existentes nos 6 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia é de 390 bilhões – o levantamento relaciona apenas exemplares com diâmetro mínimo do tronco (DAP) de 10 cm. A média de árvores por hectare é de 565. A maior surpresa foi o dado de que apenas 227 das 16.000 espécies de árvores são hiperdominantes, e contribuem com mais da metade dos 390 bilhões de indivíduos.As espécies consideradas hiperdominantes correspondem a apenas 1,4% do total das espécies estimadas para a Amazônia. Um dado de suma importância, pois mais da metade dos frutos, flores, folhas e biomassa da maior floresta do mundo, rica em biodiversidade, são de uma pequena parcela das espécies, que tem uma larga representatividade nos ciclos de carbono, água e nutrientes. Mas, um alerta é necessário – não é possível menosprezar a importância da contribuição das mais de 5.000 espécies de árvores raras no funcionamento dos ecossistemas.CampeõesO açaí-do-amazonas (Euterpe precatoria), também conhecido como açaí-solitário por apresentar apenas um estipe, é a espécie com maior população (5,21 bilhões de unidades) entre todas as hiperdominantes. O açaí que ocorre em touceiras, o Euterpe oleracea, ocupa a sexta posição com 3,78 bilhões de indivíduos. Outras quatro espécies de palmeiras estão entre as 20 de maior hiperdominância. A Protium altissimum, uma espécie de breu, é a mais populosa, com 5,21 bilhões de árvores, seguida de Eschweilera coriacea, o matamatá-branco, com 5 bilhões de árvores. Detalhe: o matamatá-branco é a única hiperdominante em todas as seis regiões adotadas pelo estudo.Segundo o botânico Rafael Salomão, que contribuiu com dados provenientes de mais de 100 lotes inventariados, o sucesso das hiperdominantes pode ser explicado por duas hipóteses. “Prevê-se a descoberta de que essas árvores sejam desproporcionalmente resistentes a patógenos, herbívoros especializados e outras fontes de mortalidade que dependam da frequência. Cultivos humanos muito difundidos na fase pré-Colombiana pode ser outra hipótese convincente para explicar o hiper domínio”, diz Salomão.MetodologiaO estudo feito por toda a Amazônia, que foi divida em seis grandes regiões, totalizou 1.170 parcelas de 1 ha cada, incluindo os cinco tipos de vegetação: terra firme, várzea, igapó, pântanos e floresta de areia branca.A pesquisa abordou principalmente a abundância (nº de indivíduos por área), a frequência (distribuição espacial), a raridade e a riqueza da flora arbórea de toda a Amazônia (nove países). As populações das espécies foram distribuídas em classes de dominância – RAD (rank-abundance distribution) -, sendo classificadas em hiperdominantes (227 espécies), dominantes (4.773), raras (5.000) e muito raras (6.000 espécies), totalizando estimadas 16.000 espécies amazônicas.ImpactosPara Ima Vieira, ecóloga do Museu Goeldi e coordenadora do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, este tipo de estudo mostra a força da cooperação intelectual no qual cientistas de vários países e instituições contribuem para o avanço do conhecimento sobre a Amazônia. “Isso só foi possível graças ao trabalho continuado de vários anos de pesquisa de todos os envolvidos que assinam o artigo. Este é um exemplo que deve ser seguido na política de ciência nacional, no apoio a projetos de longo prazo e interinstitucional”, ressalva Vieira.O estudo da Rede ADTN deve apontar novos rumos para simplificar as pesquisas bioquímicas, de ecologia animal e vegetal, além do mapeamento das plantas na Amazônia, o que poderá contribuir de maneira eficiente aos objetivos da Conservação e da Restauração de passivos ambientais na região. Fonte: www.portalamazonia.com
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