Em 2002, a Prefeitura de Xangai constatou que o porto da cidade, o maior do país, estava sobrecarregado e precisava se modernizar. As águas do canal Huangpu não eram profundas o suficiente para a nova geração de navios e não havia espaço para ampliar o porto dentro da cidade.
Decidiu-se criar Yangshan, um porto anexo em alto-mar, instalado nas duas ilhotas desabitadas. Para isso, construiu-se em apenas dois anos uma ponte de 32,5 km de extensão (2,3 vezes a Rio-Niterói) a partir de Xangai, com seis pistas para carros e caminhões. Mas em 2005 as ilhas já ficaram pequenas para o comércio chinês.
Então, cerca de 100 milhões de toneladas de areia foram usadas para fazer um aterro gigante que unisse as ilhas e dobrasse o porto a ser construído.
Consultores americanos e holandeses foram contratados para criar o “porto do futuro” -desde equipamentos que organizassem a distribuição do espaço nas ilhas até programas de computador que agilizassem o movimento de cargas.
No plano dos consultores, o novo porto ficaria pronto em 2020. Mas, durante a visita da Folha ao canteiro de Yang- -shan, 70% das obras estavam prontas. No máximo até 2012, o complexo estará concluído, a um custo total de R$ 10 bilhões (o trecho sul do Rodoanel paulista custará R$ 5 bilhões).
Mesmo sem finalizar as obras, o porto de Xangai se tornou no ano passado o segundo maior do mundo em volume movimentado, graças ao anexo de Yangshan. Até 2002, Xangai não estava nem entre os cinco maiores. Contando o anexo, Xangai movimentou no ano passado 28 milhões de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés, ou pouco mais de seis metros).
Santos, o maior porto do Brasil e 41º do mundo, movimentou 2,67 milhões de contêineres do tipo. A profundidade de Yangshan é de 15,5 metros, enquanto a de Santos é de 12,8 m. Ampliado, o anexo chinês poderá movimentar mais 15 milhões de contêineres.
“Queremos fazer o melhor porto do mundo”, disse à Folha o diretor-geral da construção de Yangshan, Gui Mo, 63. Engenheiro e secretário do Partido Comunista em Yang- -shan, não esconde o orgulho.
Ciceroneia o repórter, cercado de seus assessores, pelos belos e modernos prédios que abrigam a administração, mirantes, restaurantes e cafeterias dos 3.000 funcionários que trabalham na ilha.
Mas a obra tem seus detratores, e não só a respeito da “urbanização” das duas ilhas e do impacto ambiental. Dois importadores europeus, que pediram anonimato, disseram que o porto de Xangai transferiu “à força” todas as rotas eurasiáticas para Yangshan, o que já garantiu 80% de sua capacidade no primeiro ano de operação.
Também criticam a ausência de uma ferrovia que ligue o porto a Xangai. Apesar da espetaculosidade da ponte, dizem que ela estará congestionada em breve por pesados caminhões.
RAUL JUSTE LORES
ENVIADO ESPECIAL A XANGAI
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