Biodiesel é alternativa de energia para comunidades isoladas da Amazônia

Pesquisadores do Inpa e da Ufam estudam formas de produzir energia a partir de óleos vegetais que seriam descartados

sexta-feira, 19 de agosto, 2011 - 16:25
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Quanto tempo você consegue ficar sem energia elétrica? “No máximo duas horas” é a resposta da dona de casa Maria José da Silva Ferreira, 32. “Incomoda muito porque fica escuro e quente, além disso, precisamos da energia para conservar a comida na geladeira”, completou. Assim como Maria, outros moradores dos centros urbanos também ficam inquietos quando falta energia.
Mas você sabia que há comunidades isoladas na Amazônia que ainda não foram comtemplados com o Programa Luz para Todos do Governo Federal? Por causa disso, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) estudam, desde 2004, espécies vegetais oleaginosas da região amazônica que possuem potencial para a produção de biodiesel, bicombustível que pode substituir o óleo diesel. Entre as espécies estudadas para a geração do produto estão o tucumã, uricuri, murumu, babaçu e ucuúba.
A pesquisa se concentra nas comunidades do Roque e Nova Esperança, no Médio Juruá. Atualmente o estudo recebe fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio do programa Biocom. A pesquisa é liderada pelo doutor em química de produtos naturais, Sérgio Massayoshi Nunomura, pelo farmacêutico Roberto Figliuolo (ambos pesquisadores do Inpa) e pelo doutor em planejamento de sistemas enérgicos, José de Castro, professor da Ufam.
A comunidade estudada já possui motor a diesel gerador de energia, mas necessita comprar o combustível para abastecer a máquina. Os pesquisadores já fizeram levantamento dos municípios do Amazonas que concentram espécies oleaginosas. Entre eles estão Lábrea, Beruri e Barreirinha.
De acordo com Sergio Nunomura, o motor a diesel funciona com óleos vegetais na forma natural. “O problema é que quando o óleo vegetal queima, há muita produção de resíduos e isso causa entupimento que pode estragar o motor”, esclareceu.
Técnica
Para ser utilizado como combustível o óleo vegetal precisa passar por um processo químico, onde as moléculas serão separadas e darão origem ao biodiesel.
O processo químico mais usado para transformar o óleo vegetal em biodiesel é a rota da Transesterificação por catálise básica. Nesse processo, o óleo é misturado com álcool (metanol). Um catalisador – base química líquida ou sólida – é usado para acelerar a reação. A reação resulta na glicerina que é o cooproduto e no biodiesel que é o produto final. Depois disso, a glicerina e o biodiesel são separados.
Os pesquisadores do Inpa estudam formas de substituir o metanol pelo etanol. “Seria excelente produzir o biodiesel com a utilização do etanol porque no Brasil, por exemplo, o metanol é produzido a partir do petróleo. Já o etanol é produzido a partir de fontes renováveis como a cana-de-açúcar. Se pensamos em fonte de energia 100% renovável, deveríamos estudar a produção de biodiesel a partir de etanol”, defende Sergio Nunomura.
Desafios
Para possibilitar a utilização de um catalisador base, o óleo precisa apresentar pureza, isto é, baixa acidez. O óleo vegetal da região amazônica possui alto índice de acidez. Para garantir a pureza necessária, a produção deveria contar com um processo rápido entre a colheita, a secagem, o processamento e obtenção do óleo. “Na Amazônia, o produtor não tem esse hábito, ele normalmente espera que o vegetal despenque naturalmente da árvore. Esse tempo faz aumentar a acidez”, acrescenta o pesquisador.
A acidez dificulta a utilização da trasesterificação de catálise básica, porém não impede que o óleo vegetal seja utilizado para a produção de biodiesel. O índice de acidez define qual processo que deve ser aplicado.
Algumas comunidades já coletam óleos vegetais para vender às empresas de cosméticos ou para fins terapêuticos. Porém, o processo de extração do óleo utilizado pelas cooperativas é mecânico e não aproveita 100% do produto. Os pesquisadores aproveitam exatamente esses resíduos para a produção de biodiesel.
Apesar de buscarem fomento contínuo para aquisição de equipamentos e de oferecerem treinamentos para as comunidades, os pesquisadores sentem dificuldade para transferir a tecnologia aos comunitários. Para Nunomura, é necessário implementar políticas públicas para que essas comunidades invistam tempo na produção de energia, mas ao mesmo tempo sejam remuneradas. “A gente na cidade não consegue se imaginar nem dez minutos sem energia, imagina um local desses que não tem 100% de fornecimento? Eles também têm direito a energia para refrigeração, para estudar e ter acesso a informação. Isso também é uma questão de inclusão social”, enfatizou.
Vantagens do biodiesel
Além de ser fonte renovável, o biodiesel possui grande capacidade de geração de energia para manter atividades econômicas, como a conservação de peixe, por exemplo. Além disso, a diferença de aproveitamento entre o biodiesel e o diesel é a mesma entre o álcool e gasolina. A tecnologia utilizada para produzir o bicombustível também já é dominada.
Fonte: Portal Amazônia

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