As demissões atingiram até os mais qualificados e as contratações foram congeladas. “As buscas por profissionais em engenharia e indústria pesada representava 29% do nosso faturamento, e hoje é 19%”, diz Fabio Padovani, gerente da divisão de engenharia e manufatura da consultoria britânica Hays. “Não caiu mais porque ainda há demanda em setores como energia, mas a parte de siderurgia e mineração está quase parada.” E, ainda assim, houve mudanças no profissional desejado: “se antes era valorizado o perfil votado à expansão e projetos, agora as empresas querem gestores que saibam fazer muito usando pouco”.
O engenheiro metalúrgico Arnaldo Félix trabalhava, até outubro, na Valesul, braço da Vale que lida com ligas de alumínio no Rio de Janeiro. “Estava trabalhando no projeto de expansão da produção da Valesul, após vir de um período na Alcan. O preço do alumínio no mercado estava alto, quase irreal. E de repete, tudo mudou.” Mesmo com 22 anos de experiência e passagens por ouras companhias de peso, como Acesita (hoje Arcelor Mittal) e Alcan, a volta ao mercado ainda não ocorreu. No momento, Félix dá aulas para a Faetec, no Rio de Janeiro, e negocia com outras entidades a possibilidade de dividir sua experiência com os alunos. “Vejo várias pessoas na mesma situação. Antes, eu não tinha dúvidas de que com o meu perfil, a volta seria fácil. Hoje, sei que vou voltar, mas será um processo longo.”
A Vale informou que a maioria dos 1,3 mil demitidos da empresa este ano atuava nas áreas administrativas da empresa, e que evitou ao máximo cortes operacionais. “Ajustes foram necessários porque vínhamos em processo de crescimento e precisamos reduzir a produção de 10%.” Porém programas de formação de profissionais ainda estão mantidos.
“Muitos engenheiros migraram para construção pesada, para aproveitar a demanda das obras do PAC”, afirma Marcelo Lavall, gerente da divisão de engenharia da consultoria Michael Page. “Mas hoje ainda não há espaço para todo mundo.” Ele afirma que um engenheiro em cargo de gerência de projetos chagava a ganhar R$ 20 mil mensais em salário, mais bônus bastante agressivos, dada a demanda do setor. “Empresas pagavam até oito salários a mais em bônus ao longo do ano, e faziam ofertas polpudas para trazer profissionais de outras empresas.”
Ele acredita que a crise, além de frear contratações, fará com que as ofertas salariais fiquem mais modestas. “O salário nominal não deve baixar, mas os bônus vão ser bastante reduzidos.” Muitos profissionais que procuram recolocação, diz Lavall, preferem receber uma parcela fixa maior e remuneração variável menor, exatamente o oposto do que acontecia até a ano passado. “Eles sabem que esse será um ano de resultados fracos.”
Fonte: O Estado de São Paulo
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