
Em 62 cursos espalhados pelo país, onde são formados todos os anos cerca de 1.500 novos engenheiros florestais, eles vêm se aproximando gradualmente das demandas mais complexas de uma gestão ambiental e de uma indústria focadas no manejo sustentável e multidisciplinar de espécies nativas, deixando cada vez mais em segundo plano, ao menos na teoria, os reflorestamentos por espécies exóticas como o eucalipto e o pinus, ou ainda as autorizações de colheita florestal, que caracterizavam a atividade há algumas décadas.RepresentaçãoNo Sistema Confea/Crea, onde somam-se cerca de 11 mil registros, os profissionais conquistaram este ano a criação da Câmara Especializada de Engenharia Florestal, aprovada pela Decisão Plenária 724/2012. A Câmara está em fase de implantação. De acordo com o engenheiro florestal e chefe da Assessoria de Comunicação e Marketing do Confea, José Demetrius Vieira, as demandas da classe terão pela primeira vez voz no Conselho, inclusive na Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA, marcada para novembro). “Acompanhamos as reuniões da Rio + 20 e vamos tentar levar à SOEA um programa definido para fortalecer as competências dos engenheiros florestais, como o manejo florestal, além de procurar orientar a fiscalização em todo o país por meio de um arcabouço legal construído em diálogo com a categoria”, diz.A representação da categoria se faz também por meio da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais (SBEF), atualmente presidida pelo conselheiro do Crea-SC Gilberto Ferreti. Segundo ele, o atual quadro ainda é insuficiente para atender à demanda do país, crescente de acordo com a evolução tecnológica do setor. “Há cerca de 10 anos não possuíamos a metade dos cursos atuais”, considera. Ferreti atribui a exigências do mercado, como a Certificação Florestal, o crescimento desta demanda por profissionais.O presidente da SBEF ressalta que a maioria dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento ainda é promovida pelas grandes empresas, públicas e privadas, em torno das culturas de pinus e eucaliptos. “Isto não significa que não existam trabalhos com outras culturas como a araucária e outras nativas, porém em menor volume e na maioria ligados a instituições de ensino e pesquisa que procuram integrar universidades e empresas”. ParâmetrosA experiência profissional da consultora de meio ambiente para agências internacionais Anna Fanzeres, e do assessor da Subsecretaria de Desenvolvimento Sustentável da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Fernando Castanheira Neto, com o monitoramento do serviço florestal brasileiro acrescenta alguns parâmetros à discussão sobre a realidade da atividade. Os dois engenheiros florestais, respectivamente formados pela UFRRJ e UnB, descrevem os principais momentos que marcam a história da profissão.Coube a Navarro de Andrade, em 1904, a introdução de eucaliptos, vindos da Austrália, para prover os dormentes das estradas de ferro do país. Na década de 30, é estabelecida a Associação Nacional dos Produtores de Celulose, atendendo à demanda por indústrias de base que viriam a caracterizar a Era Vargas. A ordem era reservar para estes profissionais a tarefa de “abastecer” os mercados de celulose (fibra e papel) e de siderurgia (carvão vegetal). Não por acaso, até a década de 60, estes profissionais eram reconhecidos como “engenheiros de reflorestamento” e, ainda, “engenheiros silvicultores”.A criação do Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal (IBDF), em 1966, e, um ano antes, a publicação do Código Florestal estabeleceram novos cenários para a atividade. “O setor se tornou estratégico para os militares”. Os primeiros cursos (há uma querela entre as universidades federais de Viçosa (MG) e do Paraná quanto a sua primazia) só surgiriam nos anos 70, quando é criado o Fundo de Investimentos Setoriais Florestamento/Reflorestamento (Fiset). É dessa época também, de 1968, a criação da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais.Fernando Castanheira, ex-diretor da SBEF, ressalta que o movimento ambientalista daquela década promoveu novas referências, como a gestão ambiental e o avanço tecnológico multidisciplinar. “Já nos anos 80, a celulose de papel se mostrava preocupada com a melhor tecnologia, a ponto de a própria indústria desenvolver, no Sul e Sudeste, escolas de florestamento. O setor privado sempre foi mais fundamental, inclusive por intermédio do capital internacional de grandes empresas, que identificavam no país vantagens como território, solo, luz”, conta, apontando também o gradativo incremento da participação da sociedade civil organizada.Em seguida, passa-se à etapa atual, em que a engenharia florestal identifica-se com o manejo sustentável, de acordo com as práticas mais avançadas em vigor no mundo, como o estudo da maior diversidade possível de espécies. “O desafio da sustentabilidade flutua com outras demandas políticas, como a mineração, a energia”, pondera a consultora Anna Fanzeres. “O manejo florestal cabe apenas ao engenheiro florestal”, ressalta.Manejo e engenhariaEsse processo teve como marcos mais recentes, no país, a criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama, em 1989), a criação do Programa Nacional de Florestas (PNF, 2000, que deu origem ao atual Conselho Nacional de Florestas), a Lei de Gestão de Florestas Públicas (Lei nº 11.284/2006), a criação do Serviço Florestal Brasileiro (2006) e, por fim, a Resolução 406/2009 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama, sobre os parâmetros técnicos do Plano de Manejo Florestal Sustentável).“Os estados produtores adotaram regras em comum sobre a retirada da floresta, estabelecendo reservas legais para o manejo e gerando uma responsabilização comum maior”, acrescenta Anna, esclarecendo que a atual polêmica sobre o Código Florestal, na verdade, não está diretamente relacionada com a Engenharia Florestal porque ele se refere ao uso do solo, abrangendo florestas e outras formas de vegetação. Hoje, ressalta, o arcabouço legal que envolve a engenharia florestal preconiza que as florestas nativas podem ser concedidas para o manejo florestal, assim como doadas para comunidades extrativistas. “Mas o manejo hoje é um licenciamento, não é visto nem exercido como uma obra de engenharia. Se o engenheiro florestal não for valorizado, vamos enterrar o manejo florestal. E o Confea tem um papel fundamental para cortar na carne e mostrar a cara boa da engenharia florestal do país”, destaca Fernando Castanheira.A atividade atua direta e indiretamente sobre áreas como a siderurgia, a construção civil, a produção de fibras e papel e ainda as indústrias de embalagens e farmacêutica. Em busca de investigar como se dão as implicações econômicas, sociais, comunicativas e até mesmo culturais das populações envolvidas nestes processos, a engenharia florestal se apresenta como uma das profissões mais importantes do novo milênio. “Ela não está só no campo, está em nível de decisão. A sociedade não entende ainda a importância das florestas para o país, enquanto nós procuramos tentar trazer uma linguagem nova para as políticas de engenharia florestal, evoluindo para o conhecimento existente e para a inovação, inclusive para cobrar da indústria o uso de dados técnicos por parte dos engenheiros e também cobrar, do profissional, a responsabilidade sobre suas decisões e até mesmo para trazer a discussão do manejo florestal para a real, até para saber se ele é viável ou não”, ressalta Anna Fanzeres.Fonte: ConfeaHenrique Nunes Assessoria de Comunicação e Marketing do Confea
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