Mapeamento é desafio para alertar sobre catástrofes, diz pesquisador

Confeccionar um mapa detalhado de mais de 800 áreas de risco em todo o país é um dos maiores desafios para a implantação do Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais, planejado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para diminuir o número de mortes causadas por enchentes e deslizamentos. O projeto foi anunciado pelo governo federal na última segunda-feira (17).

sexta-feira, 21 de janeiro, 2011 - 08:04
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De acordo com o pesquisador Carlos Nobre, que irá coordenar a implantação do sistema, imagens obtidas por satélites e por aviões podem ajudar a criar mapas, mas é necessário que especialistas visitem as regiões de risco. “Não se pode fazer um levantamento genérico. As principais áreas exigem um levantamento ´in situ´, os geólogos têm que ir ao local”. Segundo o cientista, hoje não há um órgão federal que possa fazer todo o mapeamento, e será necessário haver convênios com universidades e centros de pesquisa.
No projeto do sistema nacional, ao qual o G1 teve acesso, os mapas são necessários para alimentar um software que irá cruzar informações do tempo (risco de chuva, enchentes, ventos etc.) com as regiões onde moram pessoas e há riscos de desastres – são cerca de 500 que correm perigo de deslizamento e 300 expostas a enchentes.
Quando o sistema estiver a pleno funcionamento – o que vai levar cerca de quatro anos, segundo o projeto – será possível avisar comunidades ameaçadas com no máximo duas horas de antecedência, explica Nobre.
“O tempo de previsão varia conforme o tipo de desastre. Para uma bacia hidrográfica pequena de uma região rural, como no Rio, são algumas horas. Para deslizamentos, é possível ter uma boa estimativa de risco entre doze e seis horas [de antecedência] e, no pior dos casos, duas horas”, diz.
A partir do momento em que o desastre for previsto, um aviso será passado para as defesas civis e autoridades como a polícia, bombeiros, defesa civil, prefeituras e Forças Armadas. O projeto prevê capacitação e integração com esses órgãos, mas não dá detalhes sobre como isso será feito.
Novos equipamentos
Para conseguir elaborar alertas detalhados, o MCT planeja comprar 15 radares meteorológicos, que operam em terra. Hoje o país tem 20 desses equipamentos em operação. “O radar vê as nuvens, estabelece a espessura delas e consegue ver a chuva que está caindo: quanto, onde, para onde está se deslocando”, conta o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral substituto do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Apesar de o Brasil já ter mais da metade dos radares de que necessita, Seluchi diz que nem sempre se pode contar com eles, pois há dificuldade de fazer a manutenção dos equipamentos e faltam peças de reposição. “O ideal seria ter um conjunto de radares para que, se um pare de funcionar, outro cubra a região”.
A maior parte desses equipamentos seria ainstalada na região Centro-Oeste e Nordeste, onde a cobertura é quase inexistente. A operação ficaria por conta do Departamento de Controle do Espaço Aereo (Decea), que hoje cuida da maior parte dos radares, e de institutos de meteorologia, como o Inpe e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
O projeto do sistema de alertas inclui ainda instalação de cerca de 700 pluviômetros – medidores de quantidade de chuva – e pequenas estações meteorológicas em locais de risco. Os dados obtidos seriam enviados por telefone celular, e as comunidades seriam responsáveis por cuidar dos equipamentos.
Para analisar os dados enviados por satélites, sensores e radares, o MCT aposta na capacidade do supercomputador Tupã, recentemente adquirido pelo Inpe. A máquina é considerada o 29º computador mais rápido do mundo, e consegue fazer uma previsão do tempo mais específica, com prognósticos diferentes para áreas pequenas. De acordo com Seluchi, a máquina estará em pleno funcionamento a partir do segundo semestre deste ano.
Próximo verão
Segundo Nobre, os primeiros alertas de enchentes ou deslizamentos poderão ser dados no final deste ano, pois a região da Grande São Paulo já tem dados geológicos, radares e pluviômetros para fornecer dados ao software que irá gerenciar o sistema. “Estamos fazendo testes na Grande São Paulo com radares da Aeronáutica em São Roque”, conta o pesquisador.
A partir do alerta emitido, contudo, o trabalho passa para as defesas civis, que precisarão trabalhar em conjunto com o MCT. “Não é responsabilidade do sistema fazer a ponta final. O sistema vai municiar a defesa civil com informações”, diz Nobre.
Os custos do sistema não estão descritos no projeto, e o pesquisador não quis falar em números ao G1, pois o gasto seria dividido entre várias instituições e isso ainda estaria em discussão no governo federal.

Treinamento
Para o diretor estadual da Defesa Civil de Santa Catarina, o major Márcio Luiz Alves, a população e os órgãos públicos têm que ser treinados para receber alertas. “Não basta dizer que vai chover forte, chover muito, se quem vai receber essa informação não tem o hábito de reagir a essas previsões”.
Segundo o major, é necessário construir uma relação de confiança entre os moradores e o órgão que vai dar o alerta do desastre, para que as pessoas sejam convencidas a tomar medidas de segurança. Para Alves, esse é um trabalho difícil, pois é não é raro acontecer de o alerta ser dado e o desastre não ocorrer. “Temos que explicar às pessoas que a previsão é uma probabilidade”, diz.
Para o diretor da Defesa Civil, os meios de comunicação também precisam ser treinados para comunicar desastres. Em Santa Catarina, a cartilha distribuída pelo órgão nas escolas indica o rádio como principal meio para obter informações antes e durante as catástrofes. Ao contrário da internet e do telefone, ele não precisa de energia elétrica e continua funcionando quando cabos de comunicação são derrubados nas tempestades.
Fonte: Mútua Caixa de Assistência aos Profissionais do CREA
Ascom CREA-AM

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