
Reprodução: James Maciel/Energisa
Na comunidade ribeirinha de Vila Restauração, no meio da floresta amazônica do Acre, fazer gelo é uma grande novidade. Em setembro deste ano, os moradores passaram a ter acesso contínuo à energia elétrica pela primeira vez —e congelar água é só um dos hábitos recém-adquiridos.
Localizada na Reserva Extrativista do Alto Juruá, a vila está quase na fronteira com o Peru, a 557 km da capital Rio Branco. O trajeto até o município mais próximo é feito apenas de barco —e pode demorar até oito horas dependendo das condições do rio.
Num dos lugares mais remotos do Brasil, energia elétrica sempre foi a exceção. Mas um projeto do Grupo Energisa, maior empresa de capital nacional do setor, permitiu que a comunidade tivesse acesso à eletricidade 24 horas por dia.
A companhia instalou uma usina solar para atender aos 750 moradores da vila, que antes dependiam de um único gerador a diesel.
Além de poluente e barulhento, o gerador era suficiente para apenas três horas e meia de energia por dia, o que impedia a comunidade de ter coisas tão triviais quanto gelo, como lembra Igor Nobre, 25.
Nascido na Vila Restauração, ele é piloto de canoa e diz ter vivido 25 anos praticamente sem energia nenhuma. Segundo ele, era comum ficar longos períodos no no escuro total evido a problemas no motor do gerador. Um dos piores episódios durou três meses.
Igor conta que sua esposa decidiu abrir um salão de beleza para atender às mulheres da vila. “Ela é cabeleireira agora que a energia chegou. Antes não tinha como, na hora do gerador, a tomada não aguentava ligar um secador ou uma chapinha.”
A instalação da usina solar pela Energisa foi concluída em setembro deste ano. O projeto custou R$ 20 milhões e foi feito com recursos dos programas de pesquisa e desenvolvimento da companhia, que são regulados pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A unidade de Vila Restauração tem potência de 325 kWp (quilowatts-pico) e é equipada com 580 painéis fotovoltaicos, baterias de lítio para armazenar o excedente de energia e dois geradores —movidos a diesel ou biodiesel— para situações críticas.
De acordo com Ricardo Botelho, presidente Energisa, o projeto indica um caminho possível para um dos grandes desafios do setor elétrico: conectar pequenas comunidades no meio da floresta amazônica.
Dados de uma análise feita pelo Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente) mostram que mais de 990 mil brasileiros vivem sem acesso à energia elétrica pública na Amazônia Legal.
“Nessas comunidades bem isoladas, não justifica, em grande maioria, construir uma linha de distribuição até eles. Por isso, nós começamos a examinar alternativas tecnológicas e ambientalmente adequadas para resolver essa questão”, disse.
Segundo Botelho, a escolha de um local tão complexo de ser acessado foi proposital. “Nós queríamos avaliar todas as condições, talvez até as mais difíceis, para testar essa tecnologia.”
A maior parte dos equipamentos, como placas solares, baterias e conversores, saiu de caminhão de Uberlândia (MG) até Cruzeiro do Sul (AC), de onde seguiram de balsa até a comunidade.
O deslocamento levava, em média, 13 dias, seis na estrada e sete nos rios. Uma placa na entrada da usina resume a saga: mais de 10.000 km de transporte fluvial foram feitos.
Menos de dois meses após a conclusão da obra, o resultado parece ter agradado à empresa e aos moradores.
Para o subprefeito de Vila Restauração, Eládio Furtado, 47, a chegada da usina solar ajudou a tirar um peso de cima dos ombros. Além das dificuldades inerentes à escassez energética, ele diz que arrecadar o dinheiro para comprar o diesel era uma batalha.
O gerador consumia 1.700 litros do combustível por mês, sendo que 1.000 litros eram fornecidos pela prefeitura de Marechal Thaumaturgo (o município mais próximo), e os outros 700 eram divididos pela comunidade.
O preço cobrado variava. Alguns moradores pagavam quase R$ 60 por mês para ter três horas de energia diárias. Hoje o valor médio da fatura gira em torno de R$ 30
“Quem tinha só luz em casa pagava mais barato. Para quem tinha televisão, geladeira, bomba de puxar água [do poço artesiano], ficava mais caro”, afirma.
Antônio Francisco Barros, 36, conhecido como Babau, era um dos responsáveis por ligar o gerador à noite. O horário era sempre o mesmo: das 18h às 21h30. “Às vezes eu deixava passar até cinco, dez minutos, mas não era o certo, né?”, comenta.
Babau mora na vila há 17 anos e, atualmente, é funcionário da subprefeitura. No entanto, esse é apenas um dos trabalhos que ele faz.
Entre os moradores, ele é mais conhecido por ser o narrador oficial das partidas de futebol que acontecem aos domingos no estádio da Samaúma, o campo da comunidade.
Babau narra freneticamente, ao estilo locutor de rádio, e a chegada da energia também facilitou as coisas para ele, que agora não precisa mais comprar gasolina para abastecer o gerador portátil que alimentava sua caixa de som.
Para José Adriano Mendes Silva, diretor presidente da Energisa Acre, o projeto feito na Vila Restauração vai além da instalação de uma usina solar. Segundo ele, a iniciativa é sobretudo de sustentabilidade e integração da comunidade.
“Até alguns meses atrás, essas pessoas tinham um muro na frente delas e não conseguiam olhar para fora, em função das limitações do local onde moram. Elas não tinham acesso à energia elétrica, ao mundo e às informações”, afirma.
Após a chegada da energia na vila, a Energisa também está estudando formas de viabilizar outros serviços aos moradores. Uma parceria com a TIM levou internet e telefone para a comunidade. Agora o foco é o saneamento básico e o abastecimento de água.
Para isso, a empresa encomendou um projeto executivo que será entregue às lideranças políticas locais, o que, segundo Botelho, pode facilitar a captação de recursos.
Outra iniciativa que a companhia está desenvolvendo é em relação ao consumo consciente. Além de estimular o uso de aparelhos durante o dia, quando há geração de energia solar, a Energisa trocou lâmpadas, refrigeradores e freezers de moradores por eletrodomésticos mais eficientes, a fim de diminuir o desperdício.
De acordo com Botelho, o projeto na Vila Restauração até se encaixa na agenda ESG (sigla para boas práticas ambientais, sociais e de governança) da companhia, mas não foi essa a motivação.
“A gente não falou ‘temos que carimbar isso aqui com o selo ESG’. Fizemos porque precisava ser feito. É uma demanda, é algo que a gente acha importante”, diz.
Raimundo Nogueira da Silva, 72, que o diga. Conhecido como seu Camurça, ele chegou na vila há 15 anos, quando nem gerador a comunidade tinha —só lamparina.
“Ninguém esperava um lugar desses, no meio da mata, ter uma energia de qualidade. É uma benção que a gente nunca imaginava”, comenta.
Com a instalação da usina, seu Camurça pôde ter sua primeira geladeira e agora não vê motivo para morar em outro lugar. “Se me derem casa em Cruzeiro do Sul, eu não vou. Eu acho tão bom aqui.”
Além de levar energia elétrica a regiões isoladas no meio da Amazônia, a Energisa está promovendo, em parceria com o MME (Ministério de Minas e Energia) e a Aneel, o desligamento de termelétricas que não estavam conectadas ao sistema integrado do país.
O programa teve início em 2019 e a previsão é que, até 2025, a empresa desative 19 usinas, sendo 13 em Rondônia, cinco no Acre e uma no Pará. O total do investimento é de R$ 1,2 bilhão.
No Acre, uma das principais metas é eliminar a geração termelétrica de Cruzeiro do Sul até 2025. O município é o segundo maior do estado e consome quase 100 mil litros de óleo diesel por dia.
“Nosso objetivo é levar sustentabilidade e energia ao estado do Acre, contribuindo para o seu desenvolvimento social, e logicamente, o desenvolvimento econômico que está atrelado a isso”, afirma Silva, diretor presidente da Energisa Acre.
Fonte: Folha de S.Paulo




